domingo, 29 de agosto de 2010

Tem aula de música na escola!

Apesar de obrigatória desde 2008, Escola Municipal Norman Prochet ensina a disciplina aos alunos há sete anos.

Qual a diferença entre a flauta transversal e a flauta doce?, pergunta o professor. ‘‘A flauta doce dá para comer?’’, responde, com outra pergunta, um aluno da frente. Pelo tom lúdico, dá para saber que a aula acontece em uma escola. O som do instrumento de sopro, então, pode ser ouvido pela turma de terceira série da Escola Municipal Norman Prochet, região sul da cidade.

Estudantes de 1ª a 4ª séries estão aprendendo a distinguir o som de cada intrumento e os estilos musicais

A música é conteúdo obrigatório nas escolas públicas e particulares desde 2008 mas as instituições ganharam três anos para se adaptar à lei, o que significa que a partir do ano que vem, todas devem oferecer a disciplina. Na Norman Prochet, escola que ficou em primeiro lugar na nota do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) entre as instituições das séries iniciais de Londrina em 2010, as aulas fazem parte da rotina há sete anos.

Três vezes por semana, os alunos de 1ª a 4ª séries aprendem a distinguir o som dos diferentes instrumentos e os  ritmos dos variados estilos musicais do repertório brasileiro. O aprendizado vem na forma da participação. Eles cantam juntos, batem palmas e interagem com os professores. Os professores na verdade são oito alunos do estágio obrigatório do curso de licenciatura em Música da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Os estudantes dos dois últimos anos do curso fazem o planejamento das aulas e ensinam os alunos da escola Norman Prochet.


Nas aulas, os alunos têm contato direto com os intrumentos musicais

‘‘Eles aprendem os aspectos rítmicos e melódicos, a instrumentalização, os gêneros musicais, tudo sob o ponto de vista da percepção sonora, da execução, da produção musical, e conforme a idade, da reflexão sobre a música e o contexto no qual ela está inserida’’, explica a docente e coordenadora de estágio do Departamento de Música da UEL, Helena Loureiro. Ela conta que, em uma das aulas, por exemplo, os alunos produziram um blues junto com os estagiários. 


Com as aulas, os alunos do ensino básico passam a ter contato direto com instrumentos musicais. ‘‘A gente vê instrumentos que nem conhecia’’, diz o aluno Victor Escame Munhoz, da terceira série. ‘‘Do saxofone, por exemplo, todo mundo ouve falar, mas quando trago tenho que identificar porque a maioria não sabe o que é’’, observa um dos estagiários da UEL, Wendel Gonçalves Antunes.

A flauta doce ajuda Vitor Antônio Campos, que tem asma, a respirar melhor

Os estilos musicais aprendidos em sala de aula também são variados. ‘‘Mas são principalmente os instrumentais, a que eles pouco têm acesso’’, continua Antunes. Para outro estagiário, Noel Carvalho Santos Jr, as aulas trazem uma experiência musical diferente da que a mídia costuma mostrar. ‘‘Sempre trago músicas folclóricas, especialmente músicas brasileiras.’’

Segundo Santos Jr, o importante é que os alunos não fiquem só de espectadores durante as aulas. ‘‘Uso muito o esquema das palmas e do pulso para ensinar o tempo da música, os próprios instrumentos para diferenciar o médio, grave e agudo...’’, exemplifica. E por mais que o objetivo seja ir além do que os alunos ouvem no dia a dia, o estagiário diz que sempre procura trabalhar com o contexto que a criança traz de casa, ‘‘para ter mais significado para ela’’.

Mais interesse

A diretora da escola, Sílvia Regina Souza Facco, afirma que as aulas de música têm efeito imediato sobre as crianças. ‘‘Elas fixam mais a atenção, têm mais motivação, estímulo, ficam mais calmas. Os indisciplinados ficam mais centrados e conseguem um resultado muito melhor.’’ Ela ainda conta que, depois das aulas, o interesse dos alunos em tocar algum instrumento também aumentou. ‘‘Temos muitas crianças que já foram iniciadas em um instrumento’’.

O interesse é grande; muitos querem aprender violão ou guitarra

Em uma das turmas de terceira série, por exemplo, a idéia de tocar guitarra entre os meninos cria entusiasmo. ‘‘Quero aprender a tocar violão para depois comprar uma guitarra’’, declara Mateus de Andrade Santos, de 9 anos. O aluno Victor Escame Munhoz partilha do desejo. ‘‘Vejo outras pessoas tocando violão e fico com vontade.’’ 

Já Vitor Antônio Campos, também de 9 anos, prefere os instrumentos de sopro. ‘‘Já aprendi flauta e trompete na igreja. Escolhi esses porque são instrumentos de sopro, e como tenho asma, eles ajudam na respiração.’’Na Norman Prochet, a música está presente não só nas aulas específicas, mas também de forma interdisciplinar. ‘‘Ela está inserida em atividades como a produção de texto com música de fundo, por exemplo. Os alunos pedem e já se acostumaram’’, comenta a diretora.


Mie Francine Chiba
Reportagem Local

Folha de Londrina
24/08/2010


MÚSICA É DIREITO DE TODOS

A docente do Departamento de Música da UEL, Helena Loureiro, explica que a música é uma área de conhecimento específico, assim como matemática, português ou ciências e que, portanto, também deve estar entre as disciplinas ensinadas nas escolas. ‘‘Todo mundo tem direito a ter acesso a essa área de conhecimento, e o responsável é a escola, senão o ensino de música fica elitizado’’, enfatiza. 


Flauta - instrumento de sopro utilizado desde épocas muito remotas. A flauta doce é mais simples e a mais conhecida. Já a flauta transversal tem embocadura lateral e mais 16 orifícios dotados de chaves

A música foi disciplina obrigatória nas instituições de ensino entre 1932 e 1971, mas só dois anos atrás a obrigatoriedade retornou com uma lei sancionada pelo presidente Lula. Até então, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação fazia obrigatório o ensino de Arte, mas não especificava o conteúdo da disciplina.
 
Para Helena, aprender música na escola não significa que o aluno vá, necessariamente, se tornar músico. A música, assim como outras disciplinas, faz parte da educação integral de um estudante. ‘‘A música desenvolve o ser humano em áreas em que só ela é capaz’’, avalia. Segundo a docente, essa área do conhecimento pode aprimorar a percepção, a sensibilidade, a expressão e o senso estético sob o ponto de vista musical da pessoa. 



(M.F.C.)

Folha de Londrina
24/08/2010
http://www.bonde.com.br/folha/folhad.php?id_folha=2-1--4624-20100824

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